domingo, 18 de outubro de 2009

Loja de Brinquedos


Um dia desses levei meu filho de dois anos e meio em uma loja de brinquedos. Em um acesso de rara generosidade paterna disse a ele antes de entrar na loja: “O Papai vai comprar o que você quiser!”. Só depois de ver o brilho de excitação nos olhinhos do meu pequeno que me dei conta da loucura que havia dito. No mesmo instante, uma imagem do meu apertado orçamento familiar tomou conta da minha mente. Mas o fato é que eu já havia dito e tudo o que eu podia fazer era torcer pra ele escolher algo não muito caro, e é claro, tentar bloquear sua visão toda vez que ele se aproximasse de algo grande ou colorido demais.

Então veio a surpresa. Meu filho veio correndo na minha direção com um sorriso fantástico no rosto dizendo: “Achei, Papai! Quero esse!”. Quando olhei, meio que sem querer olhar, me deparei com um carrinho minúsculo que não deveria custar mais do que R$ 10,00. Confesso que fiquei aliviado, mas ao mesmo tempo um pouco inconformado. Obviamente não queria gastar uma fortuna em um brinquedo, mas o levei ali porque queria agradá-lo, recompensá-lo, marcar a vida dele com um desses brinquedos que a gente nunca esquece, quem sabe convencê-lo um pouco do meu amor e ser “o melhor pai do mundo”.

Insatisfeito, comecei a mostrar outros brinquedos. Conferindo primeiro a etiqueta do preço e percebendo ser acessível ao bolso, mostrei incansavelmente uma porção de brinquedos das mais diversas cores e tamanhos. Enquanto mostrava, meu filho continuava agarrado ao carrinho. Depois de alguns minutos tentando convencê-lo, ele olhou pra mim com certa reprovação e disse: Papai, eu quero esse!

Foi então que percebi mais uma dessas características pueris que perdemos à medida que “crescemos.” O senso de valor de meu filho ainda estava intacto. As coisas ainda tem valor pelo que elas representam pra ele. Ele ainda não foi suficientemente contaminado pelo espírito consumista de nossa época que atribui valor às coisas pela opinião alheia, ou pelo visual atraente, ou pela imponência da marca. Pra ele, as coisas são valiosas na medida em que elas o tocam de alguma forma. Mais tarde reparei que o carrinho era um personagem do seu desenho favorito. Quando ele olhava pro carrinho, lembrava do desenho, e isso era suficiente pra fazê-lo feliz. Entendi também que minha tentativa de fazê-lo perceber meu amor por ele pelo tamanho do presente não fazia sentido. Porque meu amor se faz real em minha relação com ele, na maneira como toco seu coração.

Fiquei pensando mais tarde, quantas coisas já desejei que depois de pouco tempo perderam seu valor. Na verdade não perderam, simplesmente nunca tiveram valor. Fiquei pensando que na maioria das vezes, escolhemos as vias erradas para atribuir valor a coisas e pessoas. Quanto vale? Quanto custa? O que vão pensar de mim? Quantos vão querer ser como eu? De que forma isso vai ajudar na minha aceitação? Que vantagem tenho em andar com tal pessoa? De que forma ela pode me ajudar?

Todas essas perguntas são expressão de uma realidade infeliz: nós crescemos. Crescemos pra ser os filhos maduros que foram expulsos do jardim. Crescemos porque ouvimos alguém nos convencendo de que poderíamos ser mais do que o que Deus nos criou pra ser. Crescemos porque ouvimos alguém dizer que nós poderíamos ser deuses. E desde então, já não temos a inocência de atribuir valor aquilo que nos toca. Não conseguimos mais ver as pessoas além do que elas podem fazer por nós. Não conseguimos mais acreditar que Deus nos ama, a não ser que ele nos dê aquele presentão que sempre sonhamos ter.

Fico imaginando se Deus nos levasse a uma loja de “brinquedos”. E se antes de entrar na loja dissesse: “Escolhe o que você quiser”. Na loja teria prateleiras e mais prateleiras repletas daquilo que todos chamam de “bênçãos”: carro do ano, casa na praia, promoção no emprego, salário gordo, casamento maravilhoso, enfim, tudo o que alguém pode desejar. Como iríamos reagir?

Agarraríamos com unhas e dentes tudo aquilo que nos enche os olhos? Esperaríamos pra ver onde as outras “crianças” iriam e correríamos atrás? Ou quem sabe, se algo de puro fosse encontrado em nosso coração, procuraríamos a oferta da Graça: o bebê na manjedoura, o homem da Cruz, e diríamos: Pai, eu quero esse!

Quero aprender a querer. Quero aprender a desejar. Quero ser reformado em minhas intenções pra ambicionar aquilo que realmente é importante. Quero atribuir valor como o Pai atribui. Quero ser feliz por sentir o seu amor nos presentes mais sutis que me são concedidos a cada manhã. Quero amar o que ele ama, e me contentar em ser ainda que não possa ter. Quero perceber que nada pode ser mais valioso do que eu já tenho. Pois não há nada que Deus possa me dar, que seja melhor do que o que ele já me deu.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu SEU FILHO UNIGÊNITO para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

História e histórias


Ao longo dos séculos a Bíblia Sagrada tem sido o livro mais vendido, lido e estudado da história. Pelos mais diversos motivos, pessoas de todos os lugares e épocas se debruçam sobre as páginas do Santo Livro reconhecendo, de alguma forma, o seu valor. No entanto, nem todos o percebem como os cristãos – ou seja, como norma de fé e prática. Muitos tem as Escrituras apenas como uma fonte de informações históricas ou uma maneira de compreender sociologicamente os fenômenos da religiosidade cristã. Mas de uma forma ou de outra, a Bíblia ocupa um papel central na compreensão da história da sociedade ocidental.

Para alguns, a Bíblia deve ser considerada apenas à partir de uma perspectiva histórica. Como todo documento histórico, ela deve ser avaliada a uma certa distância, descartando tudo o que não pode ser considerado fato histórico. Alem disso, como documento ela está sujeita a comprovações externas como achados arqueológicos e outros documentos que atestem a veracidade dos fatos nela contidos. Essa abordagem constitui um extremo reducionismo, justamente por desconsiderar eventos que naturalmente não podem ser “provados” historicamente. No entanto essa compreensão tem o seu valor. É muito importante saber que os fatos narrados nas Escrituras não são obra de ficção ou produto da imaginação fértil de algum místico antigo, mas tem a essência de suas narrativas atestadas pela história.

Uma outra percepção das Escrituras, faz da Bíblia uma fonte de embasamentos teológicos. É da Bíblia que se derivam os mais elementares fundamentos teológicos nos quais se baseia o cristianismo. Foram através de incontáveis esforços que os chamados Pais da Igreja elaboraram os mais profundos tratados a respeito de assuntos complexos como a Trindade ou a deidade de Cristo. Hoje em dia, quando assuntos como esses são ignorados nas igrejas evangélicas pós-modernas como peças de museu desnecessárias para o dia a dia, poucos reconhecem o inestimável valor que essas reflexões tem na consolidação da fé. Não são muitos entre os cristãos, os que tem uma compreensão saudável e precisa a respeito desses assuntos que custaram a vida e o sangue de tantos mártires. Na tentativa de mascarar a própria mediocridade, muitos ignoram a teologia, taxando-a de “letra que mata” (mais uma das muitas equivocadas interpretações do texto Bíblico) sendo que na verdade, todos possuem uma teologia. Boa ou ruim, todos tem uma teologia; mesmo os que dizem que não se preocupam com isso.

No entanto, a Bíblia não é só isso. Não se trata apenas de um documento histórico, nem tão somente de uma fonte de tratados teológicos. A Bíblia é um livro vivo.

Tenho tido o prazer de ler o Antigo Testamento em uma outra língua e esse exercício tem me dado a oportunidade de observá-la por um novo angulo. Tenho visto a Bíblia de um ponto de vista pessoal. Não que esteja ignorando o fato de que a Bíblia tenha sido escrita para um povo e época específicos, isso é inegociável. No entanto, tenho procurado observar de que forma a minha história se encaixa na história de Deus. Isso é fascinante.

A Bíblia é a história de Deus. É a narrativa de um Deus que busca o homem para se relacionar com ele, de uma humanidade que se rebela constantemente contra o seu Criador, e de um incessante desejo do Criador de redimir e restaurar a humanidade. Sendo assim, as histórias narradas nas Escrituras se entrelaçam com a jornada pessoal de cada um, na medida que entendemos que Deus está lidando ao mesmo tempo com indivíduos e com toda a humanidade. As fantásticas sagas de homens como Abraão, Moisés, Isaías e outros, são ao mesmo tempo demonstrações de um Deus pessoal que interage com indivíduos em seus dilemas particulares, e de um Deus que articula essas histórias individuais, tecendo uma trama comum que se desenvolve em seu plano máximo de redenção. Em outras palavras, enquanto Deus age na minha história, está agindo na História; ou olhando sob outra perspectiva, enquanto age na História, está agindo também na minha história. Portanto, vejo-me conectado a um plano maior. Quando Deus age em minha história, guiando-me por seus caminhos, intervindo em minhas ambigüidades e moldando-me, não o faz somente no plano da minha individualidade, pois a História é, em certo sentido, a somatória de histórias individuais; Minha jornada, somada à jornada de muito outros constrói a História em uma teia de relações infindável.

Por isso, quando leio as histórias dos Patriarcas, profetas, apóstolos e também dos personagens não tão famosos das Escrituras, vejo-me em cada um deles. A história de Abraão faz parte da minha história, me vejo em seus erros, participo das promessas feitas a ele. Identifico-me com a sensação de impotência de Moisés, com as angustias pessoais de Davi; alegro-me com a resoluta determinação de Daniel, sinto o coração angustiado dos profetas. Enfim, é minha história, minha vida.

Assim, a Bíblia ganha cor, movimento, relevância. Deixa de ser apenas fonte de argumentação histórica ou teológica para ser a história de Deus, que não se encerrou ainda, mas recebe capítulos novos a cada manhã.

O que há de mais belo nisso tudo é que nessa história não somos apenas meros atores, marionetados pelas mãos de um tirano soberano. Em determinadas ocasiões, o autor nos empresta a pena da história, na expectativa de que possamos criar algo novo que expresse o seu caráter e revele a sua vontade.

Existe algo mais nobre e empolgante que isso?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Da sala de aula..."Reflexões aleatórias sobre o ato de refletir" (Chris Wiens)

(Estou inaugurando uma nova seção no blog. Chama-se "Da sala de aula...". A idéia é postar colaborações dos amigos que estudam comigo no Regent College. Como a faculdade é bem diversificada, temos uma oportunidade singular de ouvirmos Deus falar por meio de representantes das mais diversas partes do mundo. Para inaugurar a seção, convidei meu mais novo amigo e vizinho canadense Chris Wiens para escrever...)


Estava sentado em uma praia há alguns dias atrás, pensando acerca da vida e de Deus... preocupando-me com o futuro e desejando que Deus fosse mais audível. Não me sinto freqüentemente direcionado a uma passagem das Escrituras em particular mas nessa manha eu fui. Tratava-se do Salmo 103:

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia; quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia."

Eu precisava ouvir aquilo. Quantas vezes me aproximo de Deus esperando algo novo, algo fresco, diferente. Não há nada de errado com essa expectativa, mas se isso é tudo o que estamos buscando, então estamos perdendo alguma coisa. Essa passagem fala sobre reflexão, não apenas antecipação.

Não se esqueça de nenhum só de seus benefícios. Quão freqüentemente me esqueço quão bom Deus tem sido para comigo ao longo dos anos. Gasto tanto tempo pensando a respeito do futuro que isso compromete minha habilidade de apreciar o passado. Em meio às dúvidas de minha fé e das incertezas da vida, Deus sempre permaneceu fiel e derramou continuamente seus benefícios.
Quais são os seus benefícios? Para cada um de nós é diferente, mas existem algumas constantes que podemos encontrar nesse salmo para todos os que seguem a Deus:


Perdão – nós simplesmente não apreciamos a magnitude do fato de nossos pecados não serem mais contados contra nós. Por causa do seu benefício, não precisamos mais andar em culpa ou medo. Somos libertos para nos tornarmos as pessoas que sempre fomos destinados a ser. Aquilo que pesava sobre nós já não é mais um problema!


Redenção – pode parecer o mesmo que perdão, mas é na verdade o subproduto do perdão. Porque somos perdoados, somos redimidos, justificados com Deus, e isso nos permite entrar na presença de Deus santos e inculpáveis. Quantos cristãos são perdoados, mas não vivem como se tivessem sido redimidos? Muito freqüentemente eu aceito o perdão de Deus, mas não vivo como alguém redimido.

Amor e Compaixão – esses termos são bastante auto-explicativos. Todavia freqüentemente pensamos em Deus como um juiz legalista que não se importa pessoalmente conosco. Esse amor de Deus deveria mudar radicalmente a maneira como vemos a nós mesmos. No entanto a depressão, as feridas interiores e outras formas de baixa auto-estima são muito comuns no mundo cristão (em minha experiência como pastor de jovens, conheço esse quadro em primeira mão). Será que não acreditamos que somos amados por Deus, e que sua compaixão nos libertou do ódio que sentimos por nós mesmos?


Satisfação e renovação – perdão, redenção, amor e compaixão são todos benefícios de Deus que nos leva à satisfação. Se cremos verdadeiramente em Deus e em tudo o que ele faz e tomarmos tempo para refletir em seus benefícios, seremos satisfeitos e renovados. É tão tentador querer um pouco mais de tudo, inclusive na fé cristã. Talvez a melhor maneira de equilibrar o desejo de crescer em contentamento com o que já temos seja uma atitude de reflexão e gratidão.

Percebi que depois de meu tempo com Deus naquela praia, me senti mais vivo e renovado do que nunca. O que Deus me dera era novo, uma nova lembrança da minha necessidade de pensar em Deus e apreciar tudo o que ele já havia feito ao invés de buscar constantemente o que quero que ele faça.

Chris Wiens é casado e tem dois filhos pequenos. Foi pastor de jovens em Calgary por 7 anos e atualmente vive em Vancouver e estuda no Regent College. Suas atividades favoritas são acampar, fazer trilhas e fazer longas viagens a lugares remotos. Tem como paixão ver pessoas viverem “a vida abundante” que Jesus prometeu àqueles que o seguem. Chris já esteve em várias viagens missionárias e se interessa muito pelo que Deus está fazendo ao redor do mundo. Seu planejamento futuro inclui ser missionário em outros continentes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Amor e Obediência




“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado de meu Pai e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

Essa intima relação entre obediência e amor proposta por Jesus sempre me trouxe algumas reflexões.
Primeiramente, se a obediência é a evidência máxima do amor, isso quer dizer que todas as vezes que falhamos em obedecer estamos na verdade falhando em amar? Em outras palavras, todas as vezes que fazemos algo que não devemos fazer ou deixamos de fazer algo que deveríamos fazer (os célebres pecados por ação e omissão), estamos na verdade comprovando nossa falta de amor para com Deus?
A segunda consideração a respeito dessa ligação tão lógica entre obediência e amor é: se a obediência é a prova do amor, o que dizer de todos os tipos de relação onde a obediência é imposta ou cheia de segundos interesses? Será mesmo que todos que obedecem, o fazem porque amam? Acho difícil.
Então, o que dizer das palavras de Jesus? Sempre entendi que o objetivo final de Cristo em sua relação conosco é desenvolver um relacionamento de amor, onde a obediência torna-se uma conseqüência natural. Uma relação onde escolhemos obedecer, não por medo de possíveis punições ou por interesse em prováveis recompensas, mas pelo simples fato de querer agradar àquele a quem amamos. Assim, a obediência não seria prova do amor, mas uma conseqüência direta. Nem todo o que obedece ama, mas quem ama, obedece.
E essa relação é óbvia se entendermos o que está por trás da obediência. Obedecer é um ato de fé. Obedecer é confiar no julgamento de alguém a respeito de nossa vida. É acreditar que os mandamentos nos são dados não como formas de impor limites como mera prova de superioridade, mas porque nos são necessários para a vida, visando nosso bem. A confiança que impulsiona tal obediência é a base para o relacionamento. É por isso que antes de se revelar como Pai, Deus se revela como Deus. Antes de ser o Pai que acolhe, é o Deus que se mostra confiável ao pronunciar seus mandamentos, que quando cumpridos, produzem vida. Um pai, antes de ser amado, deve ser confiado, e a manifestação mais pura de confiança é a obediência.
Jesus, em uma brilhante interpretação da Lei de Moisés declara que o maior mandamento é: Amarás o Senhor teu Deus, e essa lei começa com: Não terás outros deuses diante de Mim. O Amor é sempre precedido pela obediência.
Faz sentido, portanto, a ligação que Jesus estabelece entre amor e obediência. A obediência é o fundamento sob o qual se constrói uma verdadeira relação de amor com Deus, sempre permeada pela confiança.
Em outra afirmação intrigante Jesus diz: Aquele que me ama será amado de meu Pai. Ninguém argumentaria o fato de que Deus ama a todos, invariavelmente. Nossa fé se baseia no fato de que Deus nos ama ainda que desobedecemos. Portanto, é impossível que a obediência esteja sendo apresentada nesse versículo como uma espécie de condição para o amor de Deus. Parece-me que o que está em questão é novamente a confiança. Aquele que obedece consegue perceber-se amado pelo Pai, já que a desobediência, mais apropriadamente chamada de pecado, nos distorce a alma, impedindo-nos de ligar intimamente ao coração de Deus. A última parte do versículo explica: eu também o amarei e me manifestarei a ele. Creio ser esse o objetivo final: a plena manifestação de Cristo em um relacionamento de amor. Um amor revelado, que não se omite nem se esconde, mas manifesta-se em sua plenitude, sem restrições nem inseguranças. No entanto, esse nível de comunhão tão desejado por nós e por Deus, só pode vir por meio do desenvolvimento de uma relação que começa com a fé confiante que se evidencia no ato muitas vezes difícil de obedecer.
Sempre achei que a pergunta era: Amo o suficiente pra obedecer? Começo a pensar se não deveria ser: Já obedeci o suficiente pra poder amar? Sempre perguntei quanto amor existe por trás da obediência, mas a questão parece ser quanta obediência existe por trás do amor. Porque afinal de contas, amar sem obedecer é o mesmo que dizer: Te amo, mas não confio em você o suficiente pra entregar minha vida em suas mãos. E parece muito claro que esse não é o tipo de relacionamento proposto por Deus em Cristo Jesus.
Respondendo às minhas próprias indagações. Não creio que todo pecado seja uma declaração de que não amamos a Deus. Mas certamente é uma declaração que amamos mais a nós mesmos do que a Deus. E para Deus, as coisas são muito radicais: ou o amamos acima de tudo e todos (e isso inclui a nós mesmos), ou não o amamos. Portanto, por mais duras que pareçam as palavras de Jesus, é assim mesmo que devem ser lidas. Se não o temos em nós o suficiente para obedecer, o melhor que temos a fazer é pedir: Senhor, ajuda-nos a te amar!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.


Essas palavras aparecem duas vezes nas escrituras. A mais conhecida é a ocasião em que Jesus Cristo as pronuncia na cruz do Calvário prestes a morrer. Em uma oração de entrega, rendendo-se ao Pai, o Filho de Deus balbucia essas palavras em meio aos esforços excruciantes do último suspiro. Interessante o fato de Jesus escolher essas palavras como suas últimas. Na verdade elas foram originalmente pronunciadas por Davi no Salmo 31 – em um dos escritos categorizados pelos estudiosos como escritos messiânicos. Uma leitura rápida do salmo revela um rei que sofre perseguições de seus inimigos, sente-se sozinho, abandonado e sob a espreita das más línguas, mas em um esforço de fé entrega-se confiantemente ao Deus à quem atribui sua salvação, entregando-lhe o espírito – uma expressão equivalente a: Minha vida está em tuas mãos. Essa expressão de rendição e entrega – Nas tuas mãos entrego meu espírito – tornou-se uma expressão comum, recitada pelas crianças israelitas antes de adormecerem.
Entretanto a relação entre as duas passagens é inequívoca, Jesus replicou a oração do rei Davi como sua última oração ao Pai. Qual seria, portanto, a exata natureza dessa relação? Creio existirem duas possíveis explicações para a ligação desses textos.
A primeira é que Davi, em sua sincera oração, expressou antecipadamente os sentimentos que Jesus Cristo sentiria séculos mais tarde. Em uma epifania profética, o rei de Israel estaria anunciando em suas próprias emoções e verbalizando em forma de oração, guardadas as devidas proporções, a mesma natureza das emoções que cerceariam o coração do Deus-homem – Jesus de Nazaré. A segunda possível interpretação, é que Jesus ao sofrer na cruz, tomou emprestadas as palavras de Davi para expressar seus sentimentos de agonia. Como se não houvesse palavras melhores para dizer naquele momento de dor.
Seja qual for a verdadeira relação entre os textos, ambas as possibilidades revelam mais um dos muitos motivos que fazem de Davi um homem segundo o coração de Deus.
Se foi uma antecipação profética da dor do Messias, ele certamente possuía uma profunda intimidade com Deus a ponto de receber do alto tal demonstração da angustia que o Deus encarnado sofreria. Se foi Jesus quem simplesmente se utilizou das palavras de Davi, isso também evidencia uma relação íntima o suficiente com Deus a ponto de suas orações serem usadas para traduzir o que o próprio Cristo queria dizer ao Pai na hora de sua morte.
A questão toda é a capacidade maravilhosa de Davi de se conectar com Deus em um nível tão profundo. Tenho minhas dúvidas se Davi sabia que estava fazendo uma oração messiânica, creio que não. Não acredito que ele tinha percepção que aquela oração seria a oração do próprio Filho de Deus no momento mais importante da história. Não. Davi só estava orando. Rasgando seu coração cheio de cicatrizes, expondo suas feridas e sua sensação de abandono, oscilando entre fé e dúvida, entre medo e esperança, entre ódio e amor. No mesmo salmo em que diz: “Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos, e horror para os meus conhecidos...” diz também: “Em ti Senhor, me refugio; jamais seja eu envergonhado.” E o mais notável é que mesmo quando ora com o coração cheio de dor e até mesmo do ressentimento tão peculiar à alma humana, sua oração ecoa pelas gerações. Mesmo atolado em angústia, sua oração se torna a oração de todo coração aflito, desde as crianças indefesas ao adormecerem, até o próprio Filho de Deus diante do sono da morte.
Quisera eu saber orar assim. Quisera eu saber traduzir os rancores do meu enganoso coração em expressões de entrega a serem copiadas através das gerações. Quisera eu ouvir mais orações assim no meio da luta. Quisera eu ouvir menos lamúrias infundadas, ou determinações arrogantes dos que querem tomar o céu a força e dobrar violentamente o braço de Deus em seu favor. Quisera eu ouvir e dizer as mesmas palavras de Davi, das crianças israelitas e de Jesus ao final dos relatos do sofrimento: Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito! E então dormir em paz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um novo jeito de Reinar


Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. (1 Coríntios 1:18 )

Uma das coisas mais surpreendentes no evangelho é o fato de Deus ter escolhido um instrumento de dor e sofrimento como símbolo máximo da fé cristã. A cruz, com toda sua conotação de fracasso, desgraça e maldição tornou-se inesperadamente o ícone sagrado mais difundido entre os homens. E não poderia ser diferente. Ao escolher a cruz, Jesus estava determinando um novo paradigma de conquista. Nela, o Filho de Deus, venceu não pela espada, pelo ódio e pela dominação imposta à moda dos imperadores, mas venceu pelo amor, pelo sacrifício e pela renúncia. É esse sentimento que houve em Cristo Jesus, que as Escrituras afirmam ser o jeito cristão de reinar. Reinamos amando, reinamos chorando, reinamos nos doando, reinamos nos sacrificando. Não reinamos empunhando a espada e conquistando à força aquilo que julgamos ser nosso por direito. Reinamos abraçando a velha cruz, negando a nós mesmos e seguindo a Cristo. Então e somente então, depois de haver caminhado suficientemente com o Servo sofredor nas estradas poeirentas e sofridas do nosso mundo, poderemos nos assentar ao seu lado para reinar.
Até a cruz. É pra lá que somos convidados a ir. Porque é somente lá que a verdadeira transformação acontece. É lá que crianças mimadas tornam-se discípulos maduros. É lá que o coração egoísta se abre para amar. E também é lá, a despeito de toda lágrima e dor, que os sofredores tornam-se mais que vencedores.

Que a palavra da cruz não seja para nós loucura, mas que seja sempre o jeito cristão de experimentar o poder de Deus.



segunda-feira, 30 de março de 2009

Em Breve...

Olá pessoal,

Desculpem-me pelas ausências de postagens dos últimos meses. Passei por uma cirurgia e também fiz uma viagem um pouco longa. Mas em breve estarei postando novos artigos.

Um abraço a todos,

Pr. Mateus Ferraz
 

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